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Abrir a janela

(Rodrigo Manzano, de Pequim) Para quem vive de palavras, a China pode ser um tormento. Nossa adorável intérprete, Sheryl Hu, não chegou a reclamar, mas achava engraçado um estrangeiro tão interessado em tudo o que pudesse ser lido. De manchetes de jornal a anúncios de promoção. A diferença nos faz sentir um pouco cegos, surdos e mudos e, certamente, um bocado analfabetos. De mim, isso exigiu uma nova abordagem na apuração e da Sheryl, reconheço, bastante paciência.

Um dia nos perdemos, apesar das anotações em chinês feitas pela Sheryl para mostrarmos ao taxista. Diante de uma placa de trânsito numa esquina movimentada, parei e comparei os caracteres do meu bloco de anotações com os da placa. Em vão. O mesmo se passa para entender a China. Às vezes e por alguns momentos, é preciso abandonar as referências. Elas são inúteis. Certa vez, o poeta mexicano Octávio Paz escreveu que só é possível contemplar o oriente por meio de uma janela. Se ele estiver certo, nesses 15 dias o máximo que conseguimos foi abrir a janela.

Politicamente, a China parece mais arejada do que se apregoa. Muitos falam desses novos ares como uma herança dos jogos Olímpicos, em 2008. Fomos abordados apenas uma vez por um guarda, quando a Pya fotografava uma velha senhora descansando, sentada ao chão da Praça da Paz Celestial. Aparentemente, não há perguntas proibidas. Mesmo diante de temas delicados, os chineses são afáveis, mas insistem que o ocidente não se esforça para entendê-los.

O que levaremos da China, além de bugigangas, é uma experiência que nos desafiou como nunca, em vários sentidos. Por enquanto, abrimos a janela.

P.S. Esse é o nosso último post em território chinês. No entanto, outros textos serão publicados aqui nos próximos dias e nas próximas edições da Revista IMPRENSA.

Uma resposta para “Abrir a janela”

  1. Sarita Coraçari disse:

    Rodrigo, mas que admiração uma constatação!
    Agradeço pela oportunidade em tê-lo conhecido, e ter sido sua aluna (privilégio de poucos). O mundo deveria ter mais pessoas como você, que nos inspiram a sonhar e almejar um dia ter ou ser um “tequinho” do profissional que você é.
    Parabéns pelas matérias e por contar-nos através de seus olhos, o que há do outro lado da janela.
    Muito sucesso sempre.

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Equipe

Rodrigo Manzano é jornalista e Diretor Editorial da IMPRENSA, onde atua desde 2001. É também professor de graduação e pós-graduação de Jornalismo em São Paulo.

Pya Lima é fotógrafa desde 2000 e colaboradora da Revista IMPRENSA desde 2007. Já atuou em fotografia de cinema, artes cênicas e espetáculos musicais.

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