Um sol no inverno

Sheryl Hu é a síntese de uma nova China que emerge da tradição, dos difíceis anos do regime e dos tempos de prosperidade e ambição econômica. Ela é a mestiçagem de espíritos complementares – às vezes conflituosos – que atravessam as novas gerações de chineses que hoje representam o presente e o futuro do país. Chegamos a ela por meio da adorável descrição feita pela jornalista Sonia Bridi em seu livro “Laowai” (Ed. Letras Brasileiras) e de uma indicação feita pela ex-correspondente da Rede Globo em Pequim, por e-mail.

Nosso primeiro encontro, depois de uma rápida troca de mensagens e recomendações antes da viagem (“tragam roupas pesadas, estamos com menos de 10 graus negativos”), aconteceu no saguão do hotel em um próspero bairro comercial de Pequim. Ao vê-la ao longe, já sorrindo em minha direção, senti o conforto necessário a quem havia acabado de enfrentar a burocrática e estressante alfândega chinesa. Era como uma inesperada e jovem mãe de duas crianças – a fotógrafa Pya Lima e eu – em um mundo um tanto ameaçador. Ela, então, disse: “Está tudo bem”. E ficou bem, como prometeu.

A família de Sheryl Hu, considerada burguesa durante a Revolução Cultural, perdeu os bens e amargou as dificuldades dos anos mais sombrios do regime maoísta. A pequena loja, a casa, a liberdade, tudo lhes foi tirado, menos o orgulho chinês e o inseparável senso de oportunidade e esforço, este, responsável por fazer de Sheryl uma das mais conhecidas intérpretes e auxiliares de jornalistas brasileiros na China, em meio a tantos profissionais, competentes na arte da tradução, mas formais demais e jornalísticos de menos. Sheryl entende o timing da atividade, o cheiro da pauta e transforma o ofício em uma alegria sempre inesperada. “Sheryl, me diga o que eu nunca poderei perguntar a uma fonte chinesa”, peço a ela em nosso primeiro jantar. “Diga o que quiser”, ela explica, antes de pôr na boca uma colher de sopa, “eu traduzo apenas o que for permitido”, complementa.

Certa madrugada, ainda em Pequim, recebo de Sheryl um e-mail “Você tem cinco minutos para uma canção de Sheryl?”. Anexada, a música “Rio na primavera”, de 3 minutos e 51 segundos, interpretada por ela, também cantora. Está em meu iPod e tem sido, desde então, a maneira mais rápida de voltar a Pequim.

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Abrir a janela

(Rodrigo Manzano, de Pequim) Para quem vive de palavras, a China pode ser um tormento. Nossa adorável intérprete, Sheryl Hu, não chegou a reclamar, mas achava engraçado um estrangeiro tão interessado em tudo o que pudesse ser lido. De manchetes de jornal a anúncios de promoção. A diferença nos faz sentir um pouco cegos, surdos e mudos e, certamente, um bocado analfabetos. De mim, isso exigiu uma nova abordagem na apuração e da Sheryl, reconheço, bastante paciência.

Um dia nos perdemos, apesar das anotações em chinês feitas pela Sheryl para mostrarmos ao taxista. Diante de uma placa de trânsito numa esquina movimentada, parei e comparei os caracteres do meu bloco de anotações com os da placa. Em vão. O mesmo se passa para entender a China. Às vezes e por alguns momentos, é preciso abandonar as referências. Elas são inúteis. Certa vez, o poeta mexicano Octávio Paz escreveu que só é possível contemplar o oriente por meio de uma janela. Se ele estiver certo, nesses 15 dias o máximo que conseguimos foi abrir a janela.

Politicamente, a China parece mais arejada do que se apregoa. Muitos falam desses novos ares como uma herança dos jogos Olímpicos, em 2008. Fomos abordados apenas uma vez por um guarda, quando a Pya fotografava uma velha senhora descansando, sentada ao chão da Praça da Paz Celestial. Aparentemente, não há perguntas proibidas. Mesmo diante de temas delicados, os chineses são afáveis, mas insistem que o ocidente não se esforça para entendê-los.

O que levaremos da China, além de bugigangas, é uma experiência que nos desafiou como nunca, em vários sentidos. Por enquanto, abrimos a janela.

P.S. Esse é o nosso último post em território chinês. No entanto, outros textos serão publicados aqui nos próximos dias e nas próximas edições da Revista IMPRENSA.

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Três mil e quinhentos cliques depois

(Pya Lima, de Pequim) Na capital do império do meio, a unanimidade dos olhos puxados raramente é quebrada. Eu não contribuí para isso, afinal, descendo de japoneses, mas o editor, Rodrigo Manzano, foi um contraste ambulante durante todo o tempo. Não apenas pelos olhos ocidentais, mas por medir o dobro da estatura média nacional e ter muito, mas muito mais pelos que os pequineses. Nosso homem das neves tropical recebeu inúmeros pedidos para ser fotografado. Tenho, pelo menos, uma dúzia de provas irrefutáveis que registraram o exato momento.

Aos fotógrafos, amadores ou não, recomendo que evitem piscar na China. Uma fração de segundo é tempo suficiente para que tudo se transforme. Para os olhos de quem fotografa, tamanha velocidade é misto de frenesi, agonia e deleite. Frenesi pelas possibilidades, agonia pelas imagens perdidas e deleite pelas capturadas. Temperaturas de até dezoito graus negativos, além do meu dedo indicador direito, congelaram três mil e quinhentos instantes eternizados em pixels.

O orgulho de pais e mães chinesas ao verem seus filhos fotografados por uma laowai (estrangeira) é impagável. Por outro lado, idosos são refratários à máquina. Executivos locais, como no Brasil, também se sentem reféns de quem os fotografa. Uma de nossas entrevistadas, da China National Radio, cochichou ao pé do meu ouvido: “Sempre trato bem os fotógrafos, quero sair bem na foto. Você percebeu que eu não parei de sorrir pra você nem por um instante?”. Concordei sem pestanejar. No mais, a Grande Muralha sempre estará à disposição de quem quiser clicá-la.

Deixo Beijing sem querer deixar, já com saudades daqueles que, além de imprimir, também plastificam a foto tirada na Praça da Paz Celestial em frente à Cidade Proibida. Manzano e eu nos rendemos, pagamos 10 yuans (aproximadamente R$ 2,50) pela nossa e revelamos, agora só falta plastificar.

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Uma coletiva na China

A All-China Journalists Association promove, mensalmente, uma entrevista coletiva com fontes do governo, da universidade e com especialistas em temas como economia, meio ambiente e aquecimento global. Ontem (20), mais de 70 jornalistas, entre eles vários correspondentes estrangeiros e assessores de imprensa de embaixadas, foram ouvir e perguntar ao economista Zhu Bao Liang, do departamento de previsões econômicas do National Information Center, o que esperar da economia chinesa em 2010.

A coletiva não foi muito diferente das brasileiras, a não ser que aqui elas parecem começar pontualmente. Há espaço para perguntas mais incisivas e ironias e, por conta da diferença de idioma, elas duram o dobro (precisam ser traduzidas do chinês para o inglês). Para não tomar notas de tudo, os repórteres fotografam, com câmeras ou aparelhos celulares, os slides de Power Point. E claro, ainda que o assunto seja a galopante economia chinesa, economia não é um dos assuntos mais excitantes. Alguns dormem. Outros fingem tomar notas, mas desenham no caderno. E, claro, o onipresente chá. Veja abaixo alguns flagrantes da coletiva.

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O homem das palavras

O melhor que pode acontecer a um jornalista é encontrar sua fonte por acaso. Na China, os acasos são quase improváveis: tudo é muito grande, o número de pessoas é impressionante e o acaso se esconde no canto, acanhado.

Pois hoje (17) o acaso nos pegou pela mão. Na entrada do Templo do Céu – onde céu e terra se encontram, antiga edificação para oferendas do imperador aos deuses – era como se o velho Yu nos esperasse, pincel na mão. Sua tinta, água. Seu papel, o chão. Escreveu “Brasil” no chão. Aos 70 anos, está lá no Templo do Céu, escrevendo seus ideogramas. E sorrindo o sorriso mais feliz que pudemos encontrar em Pequim, até agora.

Yu contou-nos sua história. E nós vamos contá-la em março, na Revista IMPRENSA.

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Extra: Sarney em Pequim!



Logo entramos na sala de reuniões da CCTV – a poderosa emissora de televisão chinesa – seu  vice-diretor Wang Jianhong nos cumprimentou e imediatamente mostrou uma foto em preto e branco em que aparece junto de José Sarney, então presidente do Brasil, em 1988. Wang foi ao país entrevistá-lo e ficou encantado com Sarney. Perguntou-nos sobre seus romances e elogiou a maneira como respondia às perguntas, de modo poético e com palavras admiráveis.

Wang quis parecer familiar à nossa cultura, mostrar intimidade com o Brasil e esse ato é bastante sensível. Está feliz porque em breve a CCTV vai abrir uma sucursal em São Paulo e sua nora será a jornalista responsável pelos trabalhos do outro lado do mundo.

No momento em que Wang lembrava sobre Sarney, Pya e eu nos entreolhamos, com um leve sorriso e uma dúvida: deveríamos falar a verdade a respeito do velho homem? Eles achavam que o ex-presidente, terminado o mandato, deveria estar em repouso, aposentado, como acontece com muitos presidentes chineses. Ao contarmos que hoje Sarney é senador, todos os chineses da sala se surpreenderam. “Ainda no poder?”, perguntaram. Quase caíram da cadeira, os nossos entrevistados. Veja bem: deve haver algo de errado com Sarney. Até os chineses, cujo Partido Comunista está no poder desde 1949, perceberam.

No final da entrevista, contei a Wang que Sarney foi alvo de várias denúncias de corrupção no ano passado. Ele sorriu. Virei à interprete e pedi que ela perguntasse o que ele achava disso. “Não tenho o que dizer”, respondeu, ainda sorrindo. Pediu um abraço à Pya, mostrando intimidade com nossos gestos afetivos. Adorou ser fotografado naquele momento. Estou desconfiado que Wang Jiahong é brasileiro. Da gema.

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O limite das perguntas

Perguntar pode parecer complicado, na China. Logo que chegamos, pedi à Sheryl, nossa intérprete, que dissesse o limite do qual não se pode passar ao fazer perguntas às fontes. Ela respondeu, com a prática de quem tem acompanhado jornalistas há quatro anos, que eu posso fazer qualquer pergunta, mas que ela não traduzirá do inglês para o chinês aquelas que julgar inapropriadas. É uma boa saída.

Não tenho problemas em evitar perguntas desconfortáveis. Sempre há maneiras de fazê-las de outro modo, de forma que até esse momento, nenhuma pergunta ficou sem resposta. Hoje, por exemplo, ao entrevistar Zhao Zhongying,  vice-diretora geral da China National Radio (CNR), a maior e mais influente emissora de rádio chinesa, eu quis saber como eles vêm revertendo a imagem de uma mídia altamente ligada ao governo central para conquistar as novas audiências. Dei uma volta tão longa quanto nosso motorista, o adorável Li, o faz para chegar aos lugares (ele adora dar voltas!) e fiz a pergunta.

Ela respondeu à minha questão, sem antes dizer que eu, assim como os jornalistas ocidentais, preciso conhecer melhor a China atual. Fiquei um pouco sem graça, não porque fui desautorizado, mas porque senti que talvez tivesse sido inapropriado. Sheryl disse que não, não foi uma saia justa.

A tradução, às vezes, é um jogo. Ao longo da entrevista há vários interlocutores. Hoje, por exemplo, Zhao Zhongying levou dois falantes em inglês e nós, a nossa intérprete. O mise-en-scéne envolve perguntar em inglês e ter a pergunta traduzida pelo intérprete do jornalista e ouvir a resposta em chinês, que será traduzida pelo intérprete da fonte, quando o há. Depois de quase uma hora de entrevista, descobri que Zhao entende e fala inglês. Fiz uma pergunta simples e rápida e imediatamente ela respondeu. Depois nos contou que viveu em Chicago, nos EUA. Segundo Sheryl, mesmo os que falam inglês preferem ser entrevistados em chinês, o que é altamente compreensível.

Além disso, há um conceito importante na cultura chinesa que não pode ser ignorado: trata-se do mianzi, algo como “perder a face”, ou seja, ser posto em uma situação embaraçosa. Ele é fundamental na hora de formular as perguntas, porque caso o entrevistado “perca a face” a entrevista se torna inviável dali para diante. Esse aspecto exige sutilezas, tanto para quem pergunta como para quem responde.

Sempre imaginei que fosse mais difícil estabelecer diálogos francos com os chineses, por conta de seu histórico de restrições e pelos assuntos considerados “delicados”. Mas não. Até esse momento, o que se vê é uma diferença aguda entre a maneira como nós, ocidentais, apuramos e o modo como os chineses estão habituados a dar entrevistas. Não sei se nosso modo é melhor: aqui, quando falam, falam sempre em nome da instituição pela qual estão respondendo naquele momento, raramente é uma opinião pessoal. Devo ter ouvido apenas duas ou três vezes a expressão “no meu ponto de vista” e quase sempre eram observações cortantes, precisas e fundamentadas. Um tesouro.

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Na dúvida, faça uma pergunta longa

Hoje visitamos a sede do Grupo People’s Daily, o mais importante conglomerado de veículos jornalísticos da China. O jornal People’s Daily (Renmin Ribao) é o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista Chinês e um dos jornais com a maior circulação na China e em todo o mundo. Ao todo, são vendidos 2,4 milhões de exemplares diariamente e sua criação remonta ao período imediatamente anterior à fundação da República Popular da China, em 1949.

Havia dois desafios no trabalho. O primeiro deles, entender melhor o papel do jornal na China que aderiu aos apelos do mercado e construiu sólidas relações econômicas com outros países do mundo. O segundo, não cometer gafes, já que se tratava de nosso primeiro encontro oficial. Além da diferença cultural, existe um aspecto muito importante nas relações formais aqui na China: o People´s Daily é, oficialmente, nosso anfitrião. Explicamos: embora o “No meio do Império do Meio” seja um projeto independente do governo chinês, qualquer jornalista que precise de visto temporário de imprensa na China precisa de uma carta-convite de entidade chinesa para que a autorização seja liberada. O correspondente do People’s Daily no Brasil, Wu Zhihua, fez contatos com seus superiores aqui na China e a carta-convite foi enviada em tempo recorde para os burocráticos e lentos padrões chineses de relacionamento. Em contrapartida, enfrentaríamos uma maratona de compromissos oficiais, reuniões formais, apresentações e outros que tais, para que pudéssemos conhecer um pouco melhor o jornal, que emprega aproximadamente 10 mil funcionários.

Pois bem, quando chegamos à sede, fomos recebidos por uma comitiva formada pela diretoria do jornal, editores de veículos do grupo e pelo Secretário Geral do diário, Zhang Dexiu. Apesar de toda leitura sobre etiqueta chinesa, sobre o ritual de troca de cartões – aspecto importante dos encontros, aqui – e sobre aquilo-que-pode-e-aquilo-que-não-pode-ser-feito, ficamos, mesmo assim, apreensivos. Ao entrar na sala em que seríamos recebidos, fomos cumprimentados por todos. O Secretário Geral Zhang Dexiu e eu sentamos no centro das atenções, ao meu lado a fotógrafa Pya Lima (que se perguntava como faria para fotografar o encontro já que, a partir daquele momento, estava dentro dele) e, do outro lado, a nossa intérprete, Sheryl Hu. Respirei fundo e, passadas as apresentações e salamaleques, pensei na pergunta mais genérica e com uma provável resposta bastante longa para que eu me livrasse do desconforto inicial. “Caro Sr. Zhang Dexiu, nós gostaríamos muito de ouvir a história do jornal People´s Daily, desde 1948”.

Não fosse tudo, acabamos de descobrir que por conta da visita, fomos notícia na agência Xinhua.

Notem a primeira foto: toda reunião é regada a chá. Cada um de nós tinha uma xícara para tomá-lo. As xícaras de chá na China têm tampa. Eu queria tomar o chá, mas não sabia o que fazer com a tampa. Durante toda a entrevista – a primeira entrevista de minha vida com platéia – não tomei o chá porque não sabia o que fazer com a tampa da xícara. A Pya também não. Na segunda foto, Pya Lima está ao fundo, enfim, livre para fotografar.

O resto do dia foi uma série de visitas a outros departamentos e conversas com jornalistas das redações de vários veículos do People’s Daily, inclusive da The Press, a Revista IMPRENSA da China, sobre a qual ainda vamos publicar aqui. E duas lições: (1) na dúvida sobre protocolo, faça uma longa pergunta; (2) os chineses são adoráveis anfitriões, generosos e interessados em conhecer seus interlocutores.

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Equipe

Rodrigo Manzano é jornalista e Diretor Editorial da IMPRENSA, onde atua desde 2001. É também professor de graduação e pós-graduação de Jornalismo em São Paulo.

Pya Lima é fotógrafa desde 2000 e colaboradora da Revista IMPRENSA desde 2007. Já atuou em fotografia de cinema, artes cênicas e espetáculos musicais.

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