A velha e o menino

A velha lê um jornal enquanto anda. Desvia do poste, desvia do buraco, desvia do caixote. Desvia do menino. O menino faz contas. A velha procura idéias novas no velho jornal, ou idéias velhas num jornal novo. O menino faz contas na calçada. As contas do menino estão certas: ele as confere com os dedos pequenos; seis menos três; dois mais quatro; cinco mais um. Preenche à lápis o caderno quadriculado. A velha anda e lê o jornal.

A velha viu Mao Tse-Tung. Viveu a Libertação e Fundação da República Popular da China. Passou pelo Grande Salto Adiante e pela Revolução Cultural. Passou pelos dias difíceis e por Deng Xiaoping. Viu os grandes portões da China se abrirem. A velha lê o jornal. O menino faz contas.

O menino tem cinco anos. É mais novo que minha mochila. O menino não viu o Timoneiro. Não saltou. Não viu a Revolução. O menino não viu Deng. O menino aprende matemática na escola e a mãe, orgulhosa dele, sorri e permite as fotos. O menino acerta nas contas e a velha lê o jornal.

Os dois são as pontas desta imensa China.

Arquivado em Crônica


Equipe

Rodrigo Manzano é jornalista e Diretor Editorial da IMPRENSA, onde atua desde 2001. É também professor de graduação e pós-graduação de Jornalismo em São Paulo.

Pya Lima é fotógrafa desde 2000 e colaboradora da Revista IMPRENSA desde 2007. Já atuou em fotografia de cinema, artes cênicas e espetáculos musicais.

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