Afinal, o que eles querem?

Os chineses, é muito fácil entender, querem apenas duas coisas: estabilidade e desenvolvimento. É impossível entender a mídia e o jornalismo chinês sem levar em conta esse objetivo final de todo e qualquer passo que os chineses tomam. Desde o dia 11, fizemos mais de 20 entrevistas com líderes dos meios de comunicação, pesquisadores e professores e as duas palavras mais repetidas em todas as entrevistas foram essas duas.

Se foi fácil entender os objetivos chineses para seu país, difícil é compreender, à primeira vista, porque o jornalismo aqui ainda é tão refratário à abertura completa e aos valores plenos como liberdade de imprensa, tal qual nós a entendemos no ocidente. Principalmente porque ao serem perguntados se a imprensa é livre, os chineses respondem: “claro”. Se perguntamos se a China é um país democrático, eles dizem “sim”. Hipóteses: ou eles mentem, ou não podemos entendê-los. A correta, na verdade, vem a ser uma terceira, muito mais complexa. Os chineses, ao procurar ao todo custo o desenvolvimento e a estabilidade, construíram uma rede de pequenos nós que os levam aos seus objetivos. A mídia é um destes nós. Eles têm, segundo os cálculos, mais duas décadas para desfazer todos eles. Uns nós serão desfeitos antes. Outros, depois. A liberdade plena de imprensa será um dos últimos. Eles não têm pressa, ainda.

Por um lado, achávamos que a situação seria muito mais sombria. A mídia chinesa está solar, iluminada pelo otimismo e pela reforma e abertura econômica que se iniciou com o presidente Deng Xiaping, entre os anos de 1978 e 1992. Trinta anos depois, os chineses reconhecem os erros e acertos do regime e entendem que todo sofrimento e todas as restrições impostas ao povo eram necessárias para atingir o estágio atual.

Ao contrário do que imaginávamos, “liberdade de imprensa” não é uma palavra proibida na China. Liberdade de imprensa é um objetivo estratégico. Por ora, alguns jornalistas continuam presos e muitos temem a mão pesada do intervencionismo estatal na mídia. Por outro, todos os veículos reconhecem e se esforçam para abrir suas páginas e seu tempo para essa Nova China que emerge, hoje. O slogan continua o mesmo: “trabalhamos para o povo”, mas o espírito é outro. “Trabalhar para o povo”, no sentido chinês, é reportar aquilo que interessa ao povo no seu sentido mais prático e menos ideológico. Incluindo, aí, notícias sobre corrupção no governo, deficiências no atendimento social e público e análises de conjuntura. Trabalhar para o povo significa não permitir que o desenvolvimento e a estabilidade sejam ameaçados por questões menores.

Pode não parecer uma imprensa livre. Mas também não nos parece uma imprensa censurada. É uma imprensa chinesa.

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O futuro do jornalismo e os jornalistas do futuro

Hoje (20) fomos à Universidade de Pequim para entender um pouco mais como é o processo de formação dos jornalistas e o que eles esperam do futuro da mídia chinesa. Ali, encontramos a estudante He Zheng Zheng, de 23 anos, e Fang Kun, de 26. Ambos estudantes de jornalismo na Universidade de Pequim. Eles não têm respostas oficiais: perguntados sobre o que acham importante mudar no jornalismo chinês, não titubeiam. “Os mecanismos de censura e controle”, diz He Zheng Zheng. “O jornalismo pode ajudar o país a se comunicar melhor com o povo”, afirma Fang Kun, cuja família é da região do Tibet.

Fang e He Zheng serão os jornalistas da liderança na mídia daqui a 20 anos, tempo que eles esperam para que os processos democráticos e de abertura da política chinesa estejam completos. Essa geração, que cresceu sob a influência da internet, acredita que a rede mundial de computadores vai forçar o governo a rever várias de suas posições. “O governo não consegue pará-la”, afirma He.

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China prepara investimentos em sucursais no Brasil

Dois dos mais importantes veículos de comunicação chineses preparam a abertura de sucursais no Brasil para o próximo biênio. A CCTV, onipresente emissora estatal que disponibiliza 21 canais abertos e 15 pagos, já está em avançado planejamento para abrir seu escritório em São Paulo, de onde enviará reportagens para sua audiência local. E o China Daily, jornal em inglês que circula entre empresários, estrangeiros e corpo diplomático pretente, em 2011, abrir uma sucursal também na capital paulista.

A principal razão, segundo os executivos dos veículos, é ampliar o relacionamento com o país, também em desenvolvimento e aproximar a China das questões brasileiras. De acordo com Gao Aming, secretário-geral do China Daily, há várias razões para a aproximação com as pautas brasileiras, entre elas a identidade econômica entre os dois países e a criação de uma nova configuração do mercado global.

Atualmente, a mídia chinesa está presente no Brasil por meio de escritórios da China Radio International, da agência Xinhua e do jornal Diário do Povo.

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Atendimento ao ouvinte

2,6 milhões de cartas e e-mails em 2008. Todos lidos. Todos respondidos. No centro de uma exposição permanente sobre a história da China Radio International (CRI), onde fomos hoje (19), há um imenso globo com todas as cartas enviadas à emissora durante o ano retrasado. Elas representam a presença da CRI ao redor do mundo e a maneira como dialoga seus ouvintes. Ao todo, a CRI mantém 61 departamentos de línguas estrangeiras. Das óbvias inglês, francês e espanhol, por exemplo, às inusitadas pachtu, tâmil, swahili e, sim, esperanto. Entre elas, o português, cujo departamento visitamos hoje.

Ao todo, trabalham no departamento de língua portuguesa 17 jornalistas, dos quais quatro brasileiros. É possível reconhecê-los na foto. Os outros são chineses que aprenderam a língua de Camões em uma das 10 universidades que ministram o idioma em todo o território chinês. As transmissões têm como público-alvo os moradores do Brasil, de Portugal e de países lusófonos africanos, mas o sotaque é brasileiro. Ou quase brasileiro. Neste ano, o departamento comemora seu 50º aniversário e uma série de atividades estão programadas para celebrar a data.

Depois de uma manhã em que a Sheryl, nossa intérprete, não se sentiu muito útil, várias impressões. Mesmo em um ambiente tão abrangente como o da CRI e num país tão distante como a China, o rádio continua permitindo um contato muito próximo dos ouvintes. A longa vitrine no corredor da rádio expõe presentes enviados por ouvintes de todos os lugares do planeta. Na seção brasileira, livros, discos do Chico Buarque e um bordado nordestino. A tonelada de cartas na recepção causam uma paradoxal sensação de proximidade com o lugar-qualquer. E a inevitável pergunta: quem responde a tanta correspondência?

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A ponte

Wu Zhihua, correspondente do jornal Diário do Povo em Brasília, foi nosso primeiro contato com os veículos de comunicação na China. Sem ele, seria muito difícil, senão impossível, agendar todas as entrevistas e ter acesso às pessoas que têm nos dado entrevistas, ao menos uma por dia, nesse tempo em Pequim. Logo em nosso primeiro contato, Wu lembrou que certa vez a Revista IMPRENSA publicou uma reportagem sobre ele, logo no começo de sua trajetória brasileira. Curiosos, procuramos a reportagem. Eis um trecho dela:

“Também em busca de respostas mais profundas está o chinês Wu Zhihua, 34 anos, os três últimos como correspondente do Diário do Povo. “A China quer aprender com as experiências de outros países”, diz ele, que prioriza em suas pautas as grandes empresas nacionais, áreas de lavoura e pecuária modernizadas, irrigação no Nordeste . Wu já conhece quase todos os Estados brasileiros, a floresta amazônica, a Unicamp, as fazendas e granjas do Sul, o sertão baiano e as praias do Nordeste.

(…)

No caso de Wu Zhihua, a diferença de doze horas entre o seu fechamento, em Brasília, e o do Diário do Povo, em Pequim, é até uma vantagem. Ele tem que remeter seus textos até as nove da manhã, mas, como não pode apurar nada antes disso, faz tudo na noite anterior e tem tempo de sobra para contornar algum imprevisto . Difícil mesmo, no seu caso, é o processo de emissão do material. Como não existe telex com ideogramas chineses, ele escreve seu texto a mão, traduz para a escrita fonética do chinês em português e envia. Do lado de lá, alguém se encarrega de reverter seu “chinoguês” para a língua pátria . E um trabalho moroso, como comer de pauzinhos em plena época da fast-food.” (Revista IMPRENSA, maio de 1988)

Essa reportagem sobre correspondentes estrangeiros no Brasil faz, em 2010, 22 anos. Está em nossa edição número 9 e é desnecessário dizer que muito mudou do Brasil, da China e do jornalismo nessas últimas duas décadas. No entanto, algo nos surpreende, ainda hoje. Em todos os lugares que visitamos, os jornalistas chineses falam que é muito importante para a China aprender com outros países. No caso de Wu, essa missão estava no seu DNA desde os seus primeiros momentos no Brasil. Em pleno século XXI, quando todas as lições parecem já ter sido aprendidas e tudo o que há para ser dito parece repetição do mesmo, a disposição chinesa em aprender com os outros é impressionante. Até mesmo nas entrevistas que fazemos, os chineses gostam de nos perguntar. Ao fim de nossas perguntas, eles começam com as deles. É uma situação atípica e interessante, para nós, jornalistas brasileiros.

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(Re)descobrindo a Grande Muralha

Hoje fomos à Grande Muralha, à tarde. Eram poucos corajosos e dispostos em enfrentar o frio de -14 graus e a sensação térmica, com o vento, de menos de 20 graus negativos. Difícil andar, difícil aproveitar ao máximo a experiência e, para a Pya Lima, muito difícil fotografar, especialmente porque é preciso retirar as luvas e o frio “queima” a pele, apesar do estoque de creme hidratante.

A Grande Muralha é um ícone da China antiga. Ela remonta a períodos de muitas dificuldades em relação à proteção do território e, de acordo com dados históricos, cerca de 20% da população chinesa, à época, se envolveu na construção do projeto. No dia em que o Google se indispôs novamente com o governo chinês por conta de restrições de acesso e por uma provável quebra de sigilo de e-mails de militantes contra o Partido Comunista, a visita à muralha é simbólica. A briga, hoje, é pela transposição de uma nova muralha, a muralha que circunda o mundo virtual e que impede o acesso de um vasto território de possibilidades de conteúdo para os chineses usuários de internet. A decisão do Google certamente é muito difícil. Se por um lado uma companhia ocidental não consegue entender as razões pelas quais o governo estabelece diretrizes tão rígidas em relação ao conteúdo online, por outro, abrir mão dos milhões de usuários de internet do planeta – a maior comunidade de conectados em todo o globo – não parece ser uma atitude muito inteligente do ponto de vista financeiro.

Nesses primeiros dias, já notamos uma diferença de acesso a conteúdos, mesmo se tratando de conteúdos não perigosos ao governo.  Buscas cruzadas em que a palavra China é uma delas se tornam difíceis e o melhor caminho é procurar por informações em chinês, a partir do Google.cn, a versão chinesa do buscador. É preciso verter, com o Google Translate, a palavra do português ou do inglês para o chinês e então procurá-la. É eficiente, mas trabalhoso, porque então é preciso traduzir novamente e encontrar ao menos o sentido. Aqui na China, a contenda entre Google e governo também foi assunto hoje, a partir, claro, de um enfoque distinto daquele publicado no Ocidente. Aqui, o tom foi o de desobediência a acordos já firmados entre governo e a companhia.

Há duas muralhas na China.

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Quem lê tanta notícia?

Enquanto os EUA agonizam as baixas de dezenas de jornais e revistas em conseqüência da crise financeira que começou em 2008, destruiu a econômica norte-americana em 2009 e já dá sinais de enfraquecimento em 2010, os chineses adoram dizer que passaram bem, obrigado.

Um dos sinais mais claros de que a crise não atingiu a economia e o setor de mídia chineses é o desempenho da circulação dos jornais por aqui. Eles já ostentavam em 2005 o mérito de serem o país com o maior número de jornais entre as 100 maiores circulações internacionais, segundo a World Association of  Newspapers (WAN). A China ocupa 24 postos na lista e alcança a marca de mais de mais de 25 milhões de exemplares por dia. Depois da crise financeira, com a queda na circulação dos jornais europeus e norte-americanos, os números relativos aos anos mais recentes deverão ser ainda mais positivos. O mais interessante é que, por enquanto, eles ainda não estão preocupados com o declínio de circulação em curto prazo, porque a tendência dos últimos anos só apontou crescimento. Mas, caso isso aconteça, eles já tem um plano B: telefonia móvel e internet.

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Expansão chinesa

A agência Xinhua foi, durante muito tempo, a única via de contato de muitas redações estrangeiras com o noticiário chinês. Ainda hoje, alguns veículos ao redor do mundo preferem usar suas informações a manter correspondentes estrangeiros na China, embora isso seja cada vez mais raro, dada a importância que a China ganhou no cenário econômico global e o valor do conteúdo exclusivo. Mas se o reconhecimento da Xinhua se deve em parte pela sua histórica atuação como uma agência estatal de notícias, hoje sua abordagem se aproxima cada vez mais de um grande conglomerado de mídia, com atuação em diferentes suportes e alcance de um público cada vez mais plural e global. Impossível não compará-la com a BBC inglesa ou a norte-americana CNN. Eles se recusam a essa comparação direta, no entanto. “Não queremos ser a BBC ou a CNN, nós aprendemos com a experiência deles, mas somos diferentes”, afirma Tang Runhua, diretor do Centro de Estudos Estratégicos de Mídia, do Instituto de Jornalismo da Agência de Notícias Xinhua.

Uma das diferenças é a constante preocupação com a imagem que a mídia ocidental dissemina a respeito da China. A principal ferramenta para reduzir os equívocos em relação à cobertura dos acontecimentos na China (ou orientar a abordagem e construir uma outra imagem da China) é expandir suas ferramentas e seu público, abandonando o contato direto apenas com os jornalistas das redações e ampliando seu escopo editorial para outros targets e outros suportes. Desse modo, além do serviço tradicional noticioso, a Xinhua mantém hoje noticiário em tempo real durante 24 horas por dia não apenas em chinês, mas em árabe, espanhol, francês, inglês, russo; em vídeo, texto, telefonia móvel, televisão e impresso, tanto jornais quanto revistas. Eles preparam para os próximos meses o lançamento de uma emissora de TV exclusivo para o mercado financeiro. “Uma espécie de Bloomberg?”, pergunto. “Sim, mas diferente”, responde Runhua.

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Equipe

Rodrigo Manzano é jornalista e Diretor Editorial da IMPRENSA, onde atua desde 2001. É também professor de graduação e pós-graduação de Jornalismo em São Paulo.

Pya Lima é fotógrafa desde 2000 e colaboradora da Revista IMPRENSA desde 2007. Já atuou em fotografia de cinema, artes cênicas e espetáculos musicais.

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