IMPRENSA perguntou a três correspondentes brasileiros que atuam ou atuaram em Pequim sobre suas experiências e opiniões a respeito do trabalho como jornalistas na China e em relação às tentativas de abertura e flexibilização do acesso as fontes e da liberdade de imprensa.
“A mão que abre fecha muito rápido”
A repórter da TV Globo Sonia Bridi viveu dois anos em Pequim com seu marido, o cinegrafista Paulo Zero, e escreveu o livro “Laowai” (Ed. Letras Brasileiras). Antes disso, elaborou uma grande reportagem veiculada no “Globo Repórter”, em 2004, o que, de certo modo, abriu a grande pauta do jornalismo brasileiro para as questões chinesas contemporâneas. Ao longo de dois anos, sua relação variou entre a paixão pelo país e a fúria de quem não encontrou na China as mesmas condições de trabalho encontradas no Brasil, por exemplo. Seu livro é um relato apaixonado e crítico sobre a realidade chinesa e um bom ponto de partida para quem deseja atuar no país, seja como correspondente, seja como enviado especial. À IMPRENSA, Sonia respondeu as seguintes perguntas:
IMPRENSA – Quais foram os aspectos positivos e negativos do trabalho como correspondente em Pequim e o quanto sua percepção do que seria a atividade jornalística mudou, quando confrontada com a realidade chinesa?
Sonia Bridi - Acho que o aspecto mais positivo foi ter botado a China na roda. Explico: quando fiz um “Globo Repórter”, em 2004, as pessoas me olhavam com cara de incredulidade, que aquilo tudo não poderia ser verdade, tanto crescimento econômico, tanta coisa acontecendo. O mundo já tinha acordado para a China. Nós, não. Então a China estar no “JN” e no “Fantástico”, enfim, em todos os telejornais, foi fundamental para que o Brasil começasse a entender que não era um fenômeno passageiro, mas uma mudança no equilíbrio de poder mundial que se configurava.
Exercer essa atividade já foi outra coisa. Por um lado, um imenso prazer de reportar coisas que eu nunca tinha visto, nem ouvido falar. Por outro, a frustração, minha companheira constante na China. Não ter acesso ás fontes, não conseguir atravessar o muro da censura, é terrível. Eu sabia que seria duro. Mas algumas experiências, como a transmissão ao vivo do templo do Céu, me mostraram que não adianta o governo central mudar diretrizes. O poder do pequeno burocrata, do chefete, é a base da sustentação do regime. E esses caras mudam só quando lhes convém, não quando o Wen Jia Bao [primeiro-ministro chinês]ou o Hu Jintao [presidente da Republica Popular da China] decidem.
IMPRENSA – Você viu progressos no tratamento aos jornalistas durante o período? Acredita que o desenvolvimento econômico terá impacto sobre o ambiente político e na abertura de informações e do Estado à imprensa?
Sonia - O comportamento deles com relação à imprensa muda de acordo com os interesses imediatos. Se eles querem suavizar para receber a visita do Bush, suavizam. Para não fazer tão feio na Olimpíada, abrem. Mas a essência é a mesma, e a mão que abre fecha muito rápido. E não, não acredito que o desenvolvimento econômico sozinho trará abertura. Pelo contrário: todos os que estão lucrando – e aí está a maior parte da população chinesa, se você pensar que nos últimos 30 anos a China viveu o maior caso de ascensão social da história – defendem o regime, dão sustentação a ele, preferem não mexer em time que cresce dois dígitos por ano. Não podemos esquecer que muitos estudantes de Tiananmen [episódio envolvendo os manifestantes da Praça da Paz Celestial, em 1989], os que sobreviveram à carnificina, hoje são defensores ferrenhos do regime.
IMPRENSA – Qual foi sua maior dificuldade como jornalista?
Sonia - A maior dificuldade é o acesso às fontes. As pessoas têm medo de falar. Elas têm pavor de falar. Porque sabem das consequências. Quando o medo domina uma sociedade, o jornalista é visto como inimigo, inclusive pelos oprimidos. É compreensível, quando a gente acompanha a realidade deles por algum tempo. Ninguém que abriu a boca e expôs os problemas, seja de administrações regionais ou central, ficou impune. No meu livro conto as histórias do militante cego que passou de exemplo nacional a presidiário maltratado, do Fu Xien Cai, um agricultor que denunciou o roubo das indenizações do projeto Três Gargantas. São milhares de exemplos. O jornalista não é punido nem censurado diretamente, pelo menos não o correspondente estrangeiro. Mas quem fala com ele paga caro.
“O governo chinês tem imensa dificuldade em receber críticas”
Claudia Trevisan é a correspondente brasileira em atividade na China com mais experiência acumulada. Claudia já foi correspondente da Folha em Pequim entre 2004 e 2005, escreveu dois livros sobre a experiência (“China, o renascimento do império”, Editora Planeta e “Os Chineses”, Editora Contexto) e hoje é correspondente pelo Estadão, desde 2008. Para ela, apesar dos jornalistas estrangeiros serem beneficiados com mais abertura e liberdade em comparação aos profissionais chineses, ainda assim há dificuldades e tentativas de cerceamento do trabalho da imprensa, “o que se faz normalmente de maneira direta ou por meio do ataque a assistentes chineses contratados pelos correspondentes”, relata.
IMPRENSA – Quais têm sido os aspectos positivos e negativos do trabalho como correspondente em Pequim e o quanto sua percepção do que seria a atividade jornalística mudou, quando confrontada com a realidade chinesa?
Claudia Trevisan – A primeira distinção que temos que fazer é entre jornalistas estrangeiros e chineses, que experimentam realidades radicalmente distintas. Os correspondentes possuem liberdade muito maior que seus colegas locais, submetidos à estrita censura do Partido Comunista. Mas isso não significa que estejam livres de intimidação, o que se faz normalmente de maneira direta ou por meio do ataque a assistentes chineses contratados pelos correspondentes. O caso clássico é o do jornalista Zhao Yan, que trabalhava para o New York Times quando foi preso, em setembro de 2004, sob a acusação de entregar segredo de Estado a estrangeiros. A detenção ocorreu logo depois que o jornal norte-americano deu um furo de reportagem sobre mudanças na liderança comunista. O NYT afirma que Zhao não teve nenhuma participação na apuração da reportagem. O jornalista permaneceu três anos na prisão. O Foreign Correspondents´ Club of China (FCCC) relata uma série de casos de tentativa de intimidação de chineses que trabalham para veículos de outros países. Também há inúmeros relatos de interferência direta na atuação dos correspondentes que ficam impedidos ou enfrentam dificuldades no desenvolvimento de seu trabalho. A relação dos casos de interferência pode ser vista no site do FCCC: http://www.fccchina.org/category/incident-reports/
IMPRENSA – Você viu progressos no tratamento aos jornalistas durante o período?
Claudia Trevisan – A relação entre as autoridades chinesas e jornalistas evolui de maneira extremamente contraditória e errática. A Olimpíada de 2008 trouxe um avanço que foi a permissão para que correspondentes viajem a qualquer lugar do país, com exceção do Tibete, sem ter que pedir autorização prévia de autoridades locais. Mas a aplicação da regra é irregular e depende do grau de sensibilidade política do assunto envolvido. Apesar de estar em uma área “livre”, a cidade muçulmana de Kashgar, em Xinjiang, passou a ser território proibido desde que jornalistas começaram a relatar a destruição de seu centro histórico pelas autoridades chinesas. Muitos dos correspondentes que tentaram ir ao local nos últimos meses foram “deportados” a Pequim assim que chegaram ao aeroporto. Outros nem conseguiam embarcar. O mesmo aconteceu em Sichuan, área do terremoto devastador de 2008.
Ao mesmo tempo, há progressos e o mais visível foi a cobertura dos confrontos entre chineses da etnia han e muçulmanos uigures em Urumqi, capital de Xinjiang, em julho de 2009. As autoridades de Pequim permitiram o acesso irrestrito de jornalistas ao local e criaram um centro de imprensa com conexão à internet, que havia sido totalmente bloqueada na cidade. Foi uma posição distinta da adotada nos conflitos registrados no Tibete em março de 2008. Dias depois dos choques, o governo chinês fechou a região aos jornalistas estrangeiros, medida que continua em vigor até hoje.
IMPRENSA – Acredita que o desenvolvimento econômico terá impacto sobre o ambiente político e na abertura de informações e do Estado à imprensa?
Claudia Trevisan – A ideia de que a adoção da economia de mercado e a integração da China ao mundo levariam inevitavelmente à democratização do país é vista com ceticismo crescente. Os dirigentes chineses repetem à exaustão que o modelo político ocidental não se adequa a seu país e afirmam buscar sua própria forma de democracia. Não há nenhum projeto do Partido Comunista de partilhar seu poder. Mas há a preocupação em aperfeiçoar os mecanismos de “democracia interna” da instituição, com maior participação popular em suas decisões. O grande problema é que essa “democracia” tem baixíssima tolerância à crítica e à dissidência, o que ameaça a existência de minorias políticas no país. A menos que aconteça uma catástrofe econômica inesperada, o cenário mais provável é a manutenção do Partido Comunista no poder por algumas décadas.
IMPRENSA – Qual foi sua maior dificuldade como jornalista?
Claudia Trevisan – O acesso a fontes oficiais e a dirigentes das poderosas empresas estatais.
IMPRENSA- A que você atribui uma imagem tão distorcida em alguns aspectos, sobre a realidade chinesa, ao redor do mundo. Existe, no seu ponto de vista, conforme me falaram várias fontes do Governo, uma falta de vontade em entender de fato uma realidade política, econômica e social tão diversa da ocidental ou os chineses se queixam porque controlam a mídia chinesa mas não conseguem controlar o conteúdo ao redor do mundo?
Claudia Trevisan – O governo chinês tem imensa dificuldade em receber críticas e costuma responder com o bordão de que seus detratores ignoram a realidade de seu país. É um argumento que tenta desclassificar os autores das críticas, mas não rebate sua substância. Também implica uma visão distorcida do papel da imprensa, no qual a crítica é um elemento central. A chamada “imprensa ocidental” não questiona apenas as autoridades de Pequim, mas seus próprios governos, muitas vezes com uma contundência que valeriam alguns anos de prisão na China. No país asiático, os veículos de comunicação são subordinados ao Partido Comunista, que atribui a si a responsabilidade de “guiar” a opinião pública do país – o que quase sempre implica adequá-la aos seus interesses.
Não vejo em que o conhecimento em detalhes dos 5.000 anos de civilização chinesa ou das obras completas de Confúcio mudariam a posição de um jornalista em relação a fatos como o julgamento do dissidente Liu Xiabo, condenado a 11 anos de prisão em dezembro de 2009 sob a acusação de “incitar a subversão”, em um processo de forte conotação política. Seu crime foi advogar reformas democráticas e assinar a Charter 8, um documento que defende o pluripartidarismo, o império da lei, a liberdade de expressão e eleições livres.
“Essa aventura jornalística foi um aprendizado extraordinário”
O jornalista Jayme Martins é um veterano em assuntos chineses. Foi, durante muitas décadas, a única presença brasileira em território chinês, como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, da rádio Jovem Pan, do Grupo RBS e como funcionário da Rádio Pequim, hoje China Radio International, emissora estatal que propaga noticiário em dezenas de idiomas. Martins viveu dias mais tensos em Pequim e cobriu os incidentes da Praça da Paz Celestial, em 1989, pela qual ganhou o Prêmio Líbero Badaró, promovido pela Revista IMPRENSA e sobre os quais fala em entrevista.
IMPRENSA – A que o senhor credita ser tão negativa a imagem da China ao redor do mundo, no que se refere ao trabalho dos jornalistas e a liberdade de imprensa?
Jayme Martins – Em parte, por culpa das partes chinesas, pouco acostumadas ao trato com jornalistas estrangeiros, sendo isso uma das decorrências do fato de ser a China um País que, saindo de uma situação semifeudal e semicolonial, partiu diretamente para uma experiência dita socialista, sem haver vivenciado as liberdades próprias de uma sociedade capitalista. Por outro lado, é preciso considerar também a inabilidade de muitos jornalistas estrangeiros no trato com as partes chinesas, por ignorarem a realidade econômico-social e político-cultural desse País, além de as entrevistas se processarem através de traduções nem sempre felizes, de parte a parte.
IMPRENSA – O senhor estava na China em 1989 no episódio da Praça da Paz Celestial. Poderia nos contar como os veículos estrangeiros cobriram aquele fato e por que o rescaldo dele é tão negativo, ainda hoje? Há equívocos que se perpetuam a respeito daquele fato?
Jayme Martins – Os milhares de jornalistas estrangeiros que haviam ido a Pequim para a visita de Gorbatchov tiveram ampla liberdade para cobrir as manifestações que ocorreram simultaneamente na Praça da Paz Celestial. Eu mesmo fazia isso diariamente, indo até a praça, ouvindo estudantes e outros manifestantes e transmitindo minhas matérias por telex e por para jornais, rádios e tevês do Brasil, sem qualquer censura. É bom lembrar as imagens de TV daqueles acontecimentos são exibidas até hoje, inclusive daquele manifestante que paralisou uma coluna de tanques na avenida central. O rescaldo negativo se deve, sem dúvida, à brutalidade com que se decidiu por ponto final naquelas manifestações que já duravam 45 dias e ameaçavam a estabilidade social em Pequim e em muitas outras cidades. O desenvolvimento multilateral conseguido pela China depois desse lamentável acidente contribuiu para que o mesmo seja considerado, pelos chineses em geral, uma página virada na história recente do País.
IMPRENSA – O desenvolvimento econômico vai alterar a maneira como o Governo Central lida com a imprensa estrangeira, no seu ponto de vista?
Jayme Martins – Não apenas o desenvolvimento econômico, mas a evolução da China em múltiplos aspectos ao longo do processo de Reforma e Abertura dos últimos 35 anos, tem contribuído para que o governo e as diferentes partes da mídia chinesa (agência de notícias, TVs, rádios, jornais, revistas) tenham melhor relacionamento com a mídia estrangeira, o que se reflete cada vez mais na mídia brasileira e de outros países.
IMPRENSA – Quais foram as maiores dificuldades que o senhor enfrentou na cobertura das manifestações na Praça da Paz Celestial e qual foi o maior aprendizado como correspondente estrangeiro na China?
Jayme Martins – Tivemos dificuldades somente depois da repressão, pois o terminal de telex foi ocupado pelo Exército e, como não dispúnhamos de fax nem internet, passamos a transmitir tudo oralmente por telefone, inclusive para a mídia impressa. Além disso, os meios de comunicação que, até então, faziam uma cobertura bastante aberta dos acontecimentos, passaram a transmitir apenas a versão oficial, o que, em geral, deixava de corresponder aos fatos. Essa aventura jornalística do outro lado do mundo foi para mim um aprendizado extraordinário, tendo me desdobrado durante mês e meio, dia e noite, de bicicleta, tratando de corresponder ao que esperavam de mim alguns dos mais importantes meios de comunicação de nosso País, o que me valeu o Grande Prêmio de Jornalismo “Líbero Badaró”, outorgado pela Revista IMPRENSA e ABI.


